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A Grandeza de um gesto

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Um dos fatos marcantes dos tempos mais recentes foi, a meu ver, a viagem feita a semana passada pelo Papa Francisco ao Canadá. Claro que não pela viagem em si, coisa tão corriqueira aos pontífices desde o século passado. Mas, veja, pelo simbolismo nela contido. O périplo canadense, já denominado de “A viagem do perdão”, representa um mea culpa histórico pelos não poucos erros cometidos pela Igreja. É, sem dúvida, um gesto de coragem, de determinação ética. Católico ou não, crente ou agnóstico, há de se ter um olhar para um passo de grandeza tão raro nestes tempos sombrios em que vivemos. Mesmo na Igreja há de se verificar que tal exposição tem sido rara. Que só de tempos em tempos acontece.

Vejo o Papa Francisco, por tal iniciativa a romper barreiras e incompreensão no próprio seio, como uma figura de marcante dignidade histórica. Afinal,ele movimenta uma estrutura multissecular. Ao contrário de muitos estadistas que, embora representantes de sua nação, se consideram apenas na condição de temporários titulares de seu governo e assim, quando muito, falam pelos períodos mais recentes e quase nunca, [mesmo porque pouquíssimos teriam tanta autoridade], pelo conjunto da História de seu país. O Papa, ao contrário, vocaliza na condição de representante de um reino terreno e divino. E, quando realizada uma peregrinação apostólica para, usando a liturgia da palavra, pedir perdão a povos nativos por abusos cometidos pela Igreja abusos que na verdade são crimes, crimes de genocídio, como reconheceu o Papa – ganha envergadura do mais alto significado. Exemplo esse não somente político como moral e ético para as Nações, no exato momento em que assistimos o genocídio que está sendo perpetradocontra a Ucrânia. Mas, reconheça-se, igualmente um exemplo também para a própria Igreja Católica.

Francisco, como gosta de ser chamado, dera três anos atrás um largo passo na direção da transparência universal quando autorizou a abertura dos arquivos secretos do Vaticano. Essa decisão conjugou-se com essa peregrinação que, a partir do dia 24, por cinco dias, fez ao país da América do Norte. O Sumo Pontífice teve encontros com representantes das populações ameríndias onde renovou o pedido de desculpas, feito em abril, a esses povos ancestrais pelos abusos contra eles cometidos pela Igreja.

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Embora há várias décadas viessem sendo denunciadas, a violência clerical foi exposta amplamente em 2021 por uma Comissão Nacional da Verdade e da Reconciliação [Canada and the Truthand Reconciliation Commission] que, depois de anos de investigação, constatara que nos perto de 140internatos, colégios e pensionatos católicos criados para atender estudantes indígenas, subsidiados pelo Estado e administrados pela Igreja Católica, crianças longe de suas famílias, de sua língua e de sua cultura, sofreram abusos físicos e sexuais de diretores e professores. Depois, com a descoberta de mais de 1.300 túmulos não identificados, verificou-se ter existido um verdadeiro “genocídio cultural” contra as populações indígenas. A violência inaudita e silenciosa ocorreu entre as últimas décadas do século XIX e os anos de 1990. Calcula-se que entre 150 mil e 200 mil crianças indígenas tenham sido enviadas a força, sem o consentimento da família, para esses locais. Muitas morreram e grande parte sofreuprivações e torturas. Com a divulgação do relatório, a indignação latente explodiu por todo o país, com igrejas sendo incendiadas e protestos em todos os setores da sociedade, o que levou o primeiro-ministro Justin Trudeau a afirmar que as “descobertas eram assustadoras” e obrigavam os canadenses “a fazer uma reflexão sobre as injustiças históricas e frequentes enfrentadas pelos povos indígenas”.

O chamamento à conciliação nacional e de pedido de desculpas encontra respaldo na presença do Papa. Várias lideranças indígenas manifestaram o desejo de que o gesto do Papa não fique apenas no simbolismo e acompanhe a decisão do governo que, em agosto do ano passado, destinou cerca € 220 milhões para ajudar as comunidades a encontraremtúmulos não identificados de crianças indígenas que morreram nessas áreas e para apoiar os sobreviventes. Ainda que tenham acontecidoinúmeras manifestações de ceticismo, amargura e dúvidas quanto a importância dessa viagem, não se pode deixar de reconhecer a grandeza do Papa Francisco ao fazê-la.

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Para mim, vejo em Bergoglio, com esses gestos, a mesma enorme grandeza do maior Papa contemporâneo, Ângelo Roncalli, João XXIII, que com as suas encíclicas sociais Mater et Magistra e Pacen in Terris deu início, em seu breve pontificado, ao aggionarmento na Igreja Católica nas décadas de sessenta e setenta e levando um entusiasmo cristão a vários setores sociais, e até mesmo a parte da juventude revolucionária em todo o mundo.

Permito-me recuar um pouco mais para, encerrando, memorar duas figuras do catolicismo que ergueram suas vozes contra o tratamento dado pelos conquistadores e pelos representantes da Igreja Católica em sua sanha de domínio aos habitantes primevos de nossa América. Refiro-me ao espanhol frei Bartolomé de Las Casas (1484 – 1566) e ao português padre Antonio Vieira (1608 – 1697), personagens das mais lembradas da História da América por sua atuação política intensa em defesa dos indígenas. Ambos enfrentaram a animosidade dos governos e a oposição da própria Igreja a que perteciam, inclusive Vieira vindo a ser acusado perante a Inquisição. Exemplos magnificos. Atuais.

Vozes tão fortes como essas se fazem necessárias quando assistimos indígenas, em pleno século XXI, ainda a passarem por uma existência de tormentas e agruras. A levarem uma vida marcada por mortes em disputas por seu pedaço de chão invadido por grileiros ou destruído por madeireiros, com seus rios e peixes envenenados pelo garimpo, com seu céu poluído pelas queimadas, enquanto sua cultura, sua língua e suas crenças são esgarçadas. Até quando esses ancestrais da terra buscarão na angústia e no desespero o pão e a esperança?

 

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Sebastião Carlos Gomes de Carvalho. Historiador. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso e do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás.

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Uso político da fé

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A cena de Jesus indignado, usando uma corda como chicote para açoitar e expulsar os vendilhões do templo, derrubando as mesas e esparramando no chão as moedas dos vendedores que faziam do templo de Jerusalém uma área de comércio de animais para sacrifício e outras quinquilharias, é pouco destacada, mas muito significativa nas narrativas bíblicas do novo testamento.

Como profeta bíblico que previu, entre outros acontecimentos, o saque e a destruição do templo de Jerusalém, que seria praticado pelos romanos décadas depois, Jesus também antecipou com sua desaprovação aos vendilhões do templo, o uso futuro que autoridades eclesiásticas, igrejas e pastores iriam fazer do seu nome para explorar a fé e conquistar dinheiro e poder. Na ocasião Jesus foi enfático ao dizer “Tirem tudo isso daqui! A casa do meu Pai não é lugar pra ficar comprando e vendendo coisas!”.

É importante separarmos o joio do trigo, pastores e religiosos sérios e honestos que buscam ser fiéis aos preceitos bíblicos e pastores e religiosos picaretas que exploram a fé como fonte de enriquecimento, religiosos que utilizam as igrejas para se elegerem como parlamentares ou obter dinheiro e outros benefícios para apoiar políticos e candidatos.

Atualmente, uma cena comum é a visita de políticos a igrejas e eventos religiosos, onde os fiéis são orientados por pastores a votar em candidatos supostamente “ungidos por Deus”. Há poucos anos, vazou a informação que um famoso político de Mato Grosso reuniu, no hotel de uma cidade do interior, pastores de várias denominações religiosas e distribuiu, entre estes, volumes significativos de dinheiro em troca de apoio eleitoral. Logo depois vi este político sendo “ungido” por um pop star pastor, em um estádio lotado de fiéis.

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Recentemente ganharam as manchetes jornalísticas o caso do ex-ministro da educação Milton Ribeiro, pastor de uma prestigiada igreja, que chegou a ser preso pela Polícia Federal por envolvimento num caso de tráfico de influência e corrupção para a liberação de recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) para prefeituras. Além do ministro, a polícia apontou o envolvimento de mais dois pastores evangélicos que cobravam propina de prefeituras para terem verbas da Educação liberadas. Três prefeitos afirmaram, durante audiência no Senado, que um desses pastores cobrava propina em dinheiro, ouro e até por meio da compra de bíblias para conseguir liberar verbas no Ministério da Educação.

Infelizmente a corrupção e manipulação política de fiéis virou moeda de troca e tem contaminado igrejas dirigidas por líderes inescrupulosos que utilizam a bíblia como arma de medo e dominação, não só para obter vantagens provenientes de emendas parlamentares e outros recursos públicos, mas também para desviar o dízimo dos fiéis, para tomar os bens de pessoas desesperadas com falsas promessas de prosperidade que só servem para enchem os bolsos desses charlatões. Pastores que utilizam os templos religiosos como feira para vender vassouras e óleos “ungidos” e os produtos os mais estapafúrdios, com a finalidade vil de enganar fiéis que buscam conforto, esperança e a cura de seus males na religião.

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Estes dias vi, por acaso na TV, um destes pastores enriquecidos pelo uso oportunista da fé alheia, dizer num culto para empresários que agora o dízimo ao invés de uma contribuição, deveria ser três, um para o Pai, um para o Filho e outro para o Espírito Santo. A ganância desses vendilhões além de sacrílega, parece não ter limites. Queria saber quanto destes dízimos são usados para auxiliar órfãos e viúvas como originalmente manda a bíblia.

Devido a influência política conquistada pelos vendilhões do templo, há um corporativismo envolvendo os poderes constituídos para proteger as bandalheiras praticadas pelos que usam a religião para obter poder e vantagens pessoais, para os que usam o nome de Jesus para enganar pessoas ingênuas e pouco esclarecidas sobre os verdadeiro princípios do cristianismo. O Brasil, também, ainda está longe de ser um Estado laico como reza a nossa Constituição, uma vez que a construção da democracia requer tempo e uma população politicamente mais esclarecida para evitar abusos e o uso político das religiões.

Mas uma coisa é certa nestas reflexões sobre o mau uso da fé e da religião, se Jesus, que disse que o reino dele não era deste mundo, voltasse hoje, os primeiros que seriam chicoteados pelo seu poder e justiça seriam, com toda certeza, os vendilhões do templo. Pois como ele ensinou no Sermão da Montanha, “Uma pessoa não pode servir a Deus e a Mamom”, ou seja, não pode servir a cobiça que corrompe o coração do homem e o afasta de Deus.

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