BARRA DO GARÇAS

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É um perigo!

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Sair de casa e se deparar com alguém lendo Guimarães Rosa. De repente, ao sair com seu companheiro ou companheira, ser surpreendido por alguém lendo Machado de Assis, em um café ou lanchonete. E no piquenique, seu filho brincando ver, subitamente, alguém lendo Cecília Meireles.
E nas páginas policiais de um jornal, todos os dias, ler um escrito de Jorge Amado, Vinícius de Morais e Carlos Drumond de Andrade.
Quem entra numa biblioteca não tem apreço pela ignorância. Está premeditando praticar um atentado contra o desconhecimento, uma emboscada à desinformação.
Fico imaginando um mundo com as facções disputando em rodas de leitura quem vai espalhar obras do Arcadismo, do Romantismo, do Realismo e do Parnasianismo.
Fico pensando qual será minha reação se, andando despreocupadamente pela rua, alguém armado com um livro, disser: parado aí, isso é um poema! E me atingir com rimas de Cora Coralina.
E se no cruzamento, com o sinal fechado, alguém bater no vidro e, de livro em punho, anunciar um trecho de João Cabral de Melo Neto.
Já pensaram se em vez de violência contra a mulher os homens passarem a praticar leitura com as mulheres. Ou num ato mais tresloucado ainda, dedicar-lhes poesias.
Poesias são melhores do que rosas e flores, pois podem ter todos os cheiros, todas as cores e podem ser despetaladas com bem me quer e mais me quer e não murcham nunca.
Se todo cidadão tiver a autorização para portar um livro, inclusive fora de casa, ele estará seguro contra a idiotice, a burrice e a incompetência.
Faltou o apedeuta dizer que se ele não for reeleito ouviremos por aí, absurdos como “analfabeto bom é analfabeto letrado” ou, então, como “razão em cima de tudo, amor em cima de todos”.
Já que Lula está livre, a palavra de ordem agora é Lula livro.

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Autor desconhecido.

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A Grandeza de um gesto

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Um dos fatos marcantes dos tempos mais recentes foi, a meu ver, a viagem feita a semana passada pelo Papa Francisco ao Canadá. Claro que não pela viagem em si, coisa tão corriqueira aos pontífices desde o século passado. Mas, veja, pelo simbolismo nela contido. O périplo canadense, já denominado de “A viagem do perdão”, representa um mea culpa histórico pelos não poucos erros cometidos pela Igreja. É, sem dúvida, um gesto de coragem, de determinação ética. Católico ou não, crente ou agnóstico, há de se ter um olhar para um passo de grandeza tão raro nestes tempos sombrios em que vivemos. Mesmo na Igreja há de se verificar que tal exposição tem sido rara. Que só de tempos em tempos acontece.

Vejo o Papa Francisco, por tal iniciativa a romper barreiras e incompreensão no próprio seio, como uma figura de marcante dignidade histórica. Afinal,ele movimenta uma estrutura multissecular. Ao contrário de muitos estadistas que, embora representantes de sua nação, se consideram apenas na condição de temporários titulares de seu governo e assim, quando muito, falam pelos períodos mais recentes e quase nunca, [mesmo porque pouquíssimos teriam tanta autoridade], pelo conjunto da História de seu país. O Papa, ao contrário, vocaliza na condição de representante de um reino terreno e divino. E, quando realizada uma peregrinação apostólica para, usando a liturgia da palavra, pedir perdão a povos nativos por abusos cometidos pela Igreja abusos que na verdade são crimes, crimes de genocídio, como reconheceu o Papa – ganha envergadura do mais alto significado. Exemplo esse não somente político como moral e ético para as Nações, no exato momento em que assistimos o genocídio que está sendo perpetradocontra a Ucrânia. Mas, reconheça-se, igualmente um exemplo também para a própria Igreja Católica.

Francisco, como gosta de ser chamado, dera três anos atrás um largo passo na direção da transparência universal quando autorizou a abertura dos arquivos secretos do Vaticano. Essa decisão conjugou-se com essa peregrinação que, a partir do dia 24, por cinco dias, fez ao país da América do Norte. O Sumo Pontífice teve encontros com representantes das populações ameríndias onde renovou o pedido de desculpas, feito em abril, a esses povos ancestrais pelos abusos contra eles cometidos pela Igreja.

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Embora há várias décadas viessem sendo denunciadas, a violência clerical foi exposta amplamente em 2021 por uma Comissão Nacional da Verdade e da Reconciliação [Canada and the Truthand Reconciliation Commission] que, depois de anos de investigação, constatara que nos perto de 140internatos, colégios e pensionatos católicos criados para atender estudantes indígenas, subsidiados pelo Estado e administrados pela Igreja Católica, crianças longe de suas famílias, de sua língua e de sua cultura, sofreram abusos físicos e sexuais de diretores e professores. Depois, com a descoberta de mais de 1.300 túmulos não identificados, verificou-se ter existido um verdadeiro “genocídio cultural” contra as populações indígenas. A violência inaudita e silenciosa ocorreu entre as últimas décadas do século XIX e os anos de 1990. Calcula-se que entre 150 mil e 200 mil crianças indígenas tenham sido enviadas a força, sem o consentimento da família, para esses locais. Muitas morreram e grande parte sofreuprivações e torturas. Com a divulgação do relatório, a indignação latente explodiu por todo o país, com igrejas sendo incendiadas e protestos em todos os setores da sociedade, o que levou o primeiro-ministro Justin Trudeau a afirmar que as “descobertas eram assustadoras” e obrigavam os canadenses “a fazer uma reflexão sobre as injustiças históricas e frequentes enfrentadas pelos povos indígenas”.

O chamamento à conciliação nacional e de pedido de desculpas encontra respaldo na presença do Papa. Várias lideranças indígenas manifestaram o desejo de que o gesto do Papa não fique apenas no simbolismo e acompanhe a decisão do governo que, em agosto do ano passado, destinou cerca € 220 milhões para ajudar as comunidades a encontraremtúmulos não identificados de crianças indígenas que morreram nessas áreas e para apoiar os sobreviventes. Ainda que tenham acontecidoinúmeras manifestações de ceticismo, amargura e dúvidas quanto a importância dessa viagem, não se pode deixar de reconhecer a grandeza do Papa Francisco ao fazê-la.

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Para mim, vejo em Bergoglio, com esses gestos, a mesma enorme grandeza do maior Papa contemporâneo, Ângelo Roncalli, João XXIII, que com as suas encíclicas sociais Mater et Magistra e Pacen in Terris deu início, em seu breve pontificado, ao aggionarmento na Igreja Católica nas décadas de sessenta e setenta e levando um entusiasmo cristão a vários setores sociais, e até mesmo a parte da juventude revolucionária em todo o mundo.

Permito-me recuar um pouco mais para, encerrando, memorar duas figuras do catolicismo que ergueram suas vozes contra o tratamento dado pelos conquistadores e pelos representantes da Igreja Católica em sua sanha de domínio aos habitantes primevos de nossa América. Refiro-me ao espanhol frei Bartolomé de Las Casas (1484 – 1566) e ao português padre Antonio Vieira (1608 – 1697), personagens das mais lembradas da História da América por sua atuação política intensa em defesa dos indígenas. Ambos enfrentaram a animosidade dos governos e a oposição da própria Igreja a que perteciam, inclusive Vieira vindo a ser acusado perante a Inquisição. Exemplos magnificos. Atuais.

Vozes tão fortes como essas se fazem necessárias quando assistimos indígenas, em pleno século XXI, ainda a passarem por uma existência de tormentas e agruras. A levarem uma vida marcada por mortes em disputas por seu pedaço de chão invadido por grileiros ou destruído por madeireiros, com seus rios e peixes envenenados pelo garimpo, com seu céu poluído pelas queimadas, enquanto sua cultura, sua língua e suas crenças são esgarçadas. Até quando esses ancestrais da terra buscarão na angústia e no desespero o pão e a esperança?

 

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Sebastião Carlos Gomes de Carvalho. Historiador. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso e do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás.

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