BARRA DO GARÇAS

Artigo

SÉRIE (LXXIII) – Maria Lúcia é o verdadeiro negócio da China

Publicados

Artigo

Em maio o PT lançou internamente o nome do professor Domingos Sávio Garcia pré-candidato ao governo. Porém o partido lidera a federação Brasil da Esperança, integrada pelo PCdoB e PV, o que leva a decisão sobre pré-candidaturas para apreciação conjunta, o que pode resultar numa guinada sobre Domingos Sávio, uma vez que entre as três siglas desponta o nome da ex-reitora da Universidade Federal de Mato Grosso ((UFMT) Maria Lúciapara disputar o Palácio Paiaguás. Sua eleição, para os maiores importadores de commodities agrícolas mato-grossenses, seria o verdadeiro negócio da China.

O ambiente na federação é favorável ao nome de Maria Lúcia. Domingos Sávio sinalizou que recua e o deputado estadual Lúdio Cabral (PT) a vê com bons olhos. Ela, claro, está vestida de noiva à espera da carruagem que a levará às urnas – para seu casório com o eleitorado – onde esteve nas duas últimas eleições.

Em 2018 Maria Lúcia candidatou-se ao Senado tendo na suplência o professor Gilmar Soares (PT) e Aluísio Arruda (PCdoB), numa coligação do PT com o PCdoB, PR, PV, PRB, PODEMOS, PMN, PROS e PP; com 172.259 votos ficou em sétimo lugar na disputa travada com outros 10 candidatos e o pleito elegeu dois senadores: Selma Arruda (PSL), com 678.542 votos e Jayme Campos(DEM), com 490.699 votos.

Selma e seus suplentes Beto Possamai e Clerie Fabiana, todos do PSL, foram cassados por crimes de caixa 2 e abuso de poder econômico, o que levou Mato Grosso à sua primeira eleição suplementar ao Senado; o pleito foi disputado em novembro de 2020 e vencido por Carlos Fávaro (PSD), com 371.857 votos. Maria Lúcia foi candidata a primeira suplente da chapa encabeçada pelo deputado estadual Valdir Barranco (PT), que cravou 117.933 votos ficando em sétimo lugar entre as 11 candidaturas; a segunda suplente de Barranco foi a professora Enelinda Scala (PT).

A composição das duas chapas majoritárias da federação permanece sob costura, mas o PT além de Domingos Sávio, também lançou a pré-candidatura de Enelinda Scalaao Senado. Os cenários são poucos, mas terão que levar em conta o PV, que é controlado pelo prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro (MDB), que alinhava para lançar sua mulher,Márcia Pinheiro (PV) ou para vice na federação ou para o Senado, mas não há clareza quanto a isso.

Emanuel Pinheiro está à frente de uma administração marcada  por seguidas denúncias de corrupção feitas pelo Ministério Público. Secretários municipais foram afastados judicialmente e presos; Emanuel Pinheiro também esteve afastado judicialmente do cargo. Márcia Pinheiro protagonizou um episódio de abuso de poder, que resultou no ressarcimento ao erário público (leiam no capítulo sobre ela nesta série, quando a mesma era apresentada enquanto pré-candidata a deputada estadual).

Emanuel Pinheiro, Márcia Pinheiroe PV à parte, caso Maria Lúciachegue ao governo a corrente ideológica da esquerda brasileira, que defende o comunismo, ganhará importante e articulada voz no Estado que lidera o ranking entre os exportadores para os camaradas chineses que encontraram nas commodities agrícolas mato-grossenses um dos esteios de sua política de segurança alimentar. Mais: em rota inversa seria porta de entrada para os interesses ideológicos de Pequim na Terra de Rondon, ou seja, o verdadeiro negócio da China para o Partido Comunista de Xi Jinping.

Gostou do texto? Obrigado. Se possível contribua com qualquer valor para a manutenção do blog e sua linha editorial independente – sem patrocínio. PIX 138.310.541-34

 

Leia Também:  Polícia Civil indicia vereador Paccola por homicídio qualificado
A menina que pegava carona pra ir à escola virou reitora

ELA – Pequena, franzina, a menina agarrava-se com as duas mãos na corda de bacalhau que amarrava os latões de leite de 50 litros, para que não dançassem pela carroceria. Sem poder segurar o embornal com os livros, cadernos, lápis e apontador, ela pisava sobre ele. A cada 500, 600 metros o motorista parava para receber mais leite. Assim, ao longo de 41 quilômetros o caminhão leiteiro no qual pegava carona concluía o percurso de ida ao laticínio. Depois retomava o caminho de volta, pela estradinha esburacada, ora coberta por um canudo de poeira ora transformada num atoleiro sem fim na ligação de Sandovalina, onde morava, com Pirapozinho, onde estudava, no interior paulista.

A aventura na carroceria do caminhão leiteiro não era diária. Acontecia quando o velho ônibus que fazia a linha naquele trecho, quebrava. Havia risco, mas ela sequer tinha consciência disso e junto ao grupo de outras crianças de sua idade, brincava com a pureza e inocência dos anjos.

Esse roteiro a levava para 5ª série em Pirapozinho. A aventura não era somente chegar: ela se completava com o malabarismo para manter impecavelmente limpo o uniforme escolar, coisa que todos do grupo tiravam de letra usando um guarda-pó – vestimenta de proteção muito comum à época.

Sua infância não foi fácil, mas mesmo assim encontrava tempo para devorar boa parte do acervo da biblioteca da prefeitura, onde palmilhou os textos de Dostoievski, Tolstói, Victor Hugo, Machado de Assis, Jorge Amado, outros autores e gostosos contos e histórias infantis. Com uma pontada de orgulho seus pais acompanhavam suas proezas de leitora.

Entre uma viagem e outra a menina entrou na adolescência e depois de uma mudança de endereço escolar havia concluído o curso Normal em Presidente Prudente, a cidade mais importante da região de Sandovalina. Normalista e sonhadora, em 1971 deixou a Faculdade de Letras de Tupã, com um canudo debaixo do braço.

Recém-formada, em fevereiro de 1973 desembarcou em Cuiabá, foi enleada por uma conspiração amorosa formada pelo calor, o azul do céu e o quê de encanto dessa cidade que brotou bem no centro da América do Sul. À época, homens e máquinas trabalhavam “em ritmo de Brasília”, como se dizia, em alusão ao piscar de olhos que foi a construção da capital federal pela ousadia do visionário JK. A correria era para concluir a construção da UFMT criada em 10 de dezembro de 1970 no governo do presidente Médici.

Encantada pelo calor e o azul do céu, bateu às portas da UFMT. Foi atendida por Gervásio Leite. Esse encontro da menina-mulher com a Universidade em construção foi o primeiro passo de uma caminhada ditada por uma paixão avassaladora ao longo de 45 anos ininterruptos, que a cada segundo mais e mais as fez complemento uma da outra e vice-versa. Esse quase meio século de boa e salutar cumplicidade resultou numa arejada, fértil e fabulosa relação bem proveitosa para ambas. Para a normalista foi mais que uma função, pela multiplicidade de suas atribuições – sem abrir mão da missão de professora – que proporcionou-lhe amizades sinceras, alargou horizontes profissionais com conquistas iguais ao mestrado e doutorado. Para a Instituição virou marco referencial, pois aquela professora que no ontem era menina e se segurava na corda de bacalhau na carroceria do caminhão que a levava pra escola, foi agente da sua maior guinada física no campus de sua sede em Cuiabá e nos demais campi, quando sua reitora em dois mandatos consecutivos entre 2008 e 2016.

Deputado constituinte em 1947, presidente da OAB regional, desembargador do Tribunal de Justiça, escritor com várias obras publicadas, membro e presidente da Academia Mato-grossense de Letras, jornalista e professor da UFMT, Gervásio Leite que a acolheu foi uma das figuras mais notáveis de Mato Grosso em sua época.

Palmo a palmo. Tijolo a tijolo Mato Grosso ganhou sua UFMT, uma Universidade que é centro irradiador de ciência, cultura e saber na amplitude da palavra. Essa Universidade tem na sua argamassa impressões digitais de figuras abnegadas que deram o melhor de sua juventude para sua criação e consolidação num período caracterizado enquanto ponto de transição entre o vazio populacional nos anos 1970 que foi substituído pela densidade demográfica que não parava de crescer e aos poucos povoou a territorialidade mato-grossense, reforçada com a chegada de levas e levas de brasileiros em busca do amanhã, e que juntaram os filhos da terra.

As digitais da menina que segurava-se na corda de bacalhau que prendia os latões de leite na carroceria do caminhão que tantas vezes foi seu improvisado ônibus escolar estão no histórico da UFMT, a exemplo das digitais do primeiro reitor Gabriel Novis Neves. Melhor: povoam mentes e corações de milhares de alunos e ex-alunos, de servidores e professores daquela Instituição.

Caminheira desde o nascimento em Nova América, interior paulista, a menina que segurava-se na corda de bacalhau na carroceira do caminhão encontrou ninho em Cuiabá, onde inicialmente foi hóspede do hotel de dona Teresa e a cada nascer do sol conquistou fragmentos da cidadania cuiabana que adquiriu plenamente e feliz compartilha com o marido Renato e os herdeiros Luciana, Renatinho, Jansen e Janaína, pois no teto onde vive a verdadeira família não há distinção entre filhos e genros, e todos formam a Perradinha.

Aquela menina que segurava-se na corda de bacalhau que prendia os latões de leite na carroceria do caminhão é tudo isso na UFMT e também cidadã com posicionamento ideológico bem definido. Filiada ao PCdoB, seu nome é Maria Lúcia Cavalli Neder, paulista de Nova América, nascida em 18 de junho de 1951.

SÉRIE – Dentre os citados neste texto a séria já focalizou Valdir Barranco,  Lúdio Cabral, Márcia Pinheiro e Enelinda Scala.

INFOGRAFIA/ARTE – Marco Antônio Raimundo – Marcão
FOTOS:
1 – paginadoe.com.br
2 – Site público da Assembleia Legislativa

Continuem acessando o blog. Aguardem o próximo capítulo da série

Leiam o livro O lugar chamado Rondonópolis

Na capa do blog, em page flip. Um show de informações sobre a Terra de Rondon

 

COMENTE ABAIXO:
Propaganda

Artigo

A Grandeza de um gesto

Publicados

em

Um dos fatos marcantes dos tempos mais recentes foi, a meu ver, a viagem feita a semana passada pelo Papa Francisco ao Canadá. Claro que não pela viagem em si, coisa tão corriqueira aos pontífices desde o século passado. Mas, veja, pelo simbolismo nela contido. O périplo canadense, já denominado de “A viagem do perdão”, representa um mea culpa histórico pelos não poucos erros cometidos pela Igreja. É, sem dúvida, um gesto de coragem, de determinação ética. Católico ou não, crente ou agnóstico, há de se ter um olhar para um passo de grandeza tão raro nestes tempos sombrios em que vivemos. Mesmo na Igreja há de se verificar que tal exposição tem sido rara. Que só de tempos em tempos acontece.

Vejo o Papa Francisco, por tal iniciativa a romper barreiras e incompreensão no próprio seio, como uma figura de marcante dignidade histórica. Afinal,ele movimenta uma estrutura multissecular. Ao contrário de muitos estadistas que, embora representantes de sua nação, se consideram apenas na condição de temporários titulares de seu governo e assim, quando muito, falam pelos períodos mais recentes e quase nunca, [mesmo porque pouquíssimos teriam tanta autoridade], pelo conjunto da História de seu país. O Papa, ao contrário, vocaliza na condição de representante de um reino terreno e divino. E, quando realizada uma peregrinação apostólica para, usando a liturgia da palavra, pedir perdão a povos nativos por abusos cometidos pela Igreja abusos que na verdade são crimes, crimes de genocídio, como reconheceu o Papa – ganha envergadura do mais alto significado. Exemplo esse não somente político como moral e ético para as Nações, no exato momento em que assistimos o genocídio que está sendo perpetradocontra a Ucrânia. Mas, reconheça-se, igualmente um exemplo também para a própria Igreja Católica.

Francisco, como gosta de ser chamado, dera três anos atrás um largo passo na direção da transparência universal quando autorizou a abertura dos arquivos secretos do Vaticano. Essa decisão conjugou-se com essa peregrinação que, a partir do dia 24, por cinco dias, fez ao país da América do Norte. O Sumo Pontífice teve encontros com representantes das populações ameríndias onde renovou o pedido de desculpas, feito em abril, a esses povos ancestrais pelos abusos contra eles cometidos pela Igreja.

Leia Também:  CHARLATÃO DA MAÇONARIA- PC registra 70 vítimas de advogado em Cuiabá; golpes somam R$ 60 milhões

Embora há várias décadas viessem sendo denunciadas, a violência clerical foi exposta amplamente em 2021 por uma Comissão Nacional da Verdade e da Reconciliação [Canada and the Truthand Reconciliation Commission] que, depois de anos de investigação, constatara que nos perto de 140internatos, colégios e pensionatos católicos criados para atender estudantes indígenas, subsidiados pelo Estado e administrados pela Igreja Católica, crianças longe de suas famílias, de sua língua e de sua cultura, sofreram abusos físicos e sexuais de diretores e professores. Depois, com a descoberta de mais de 1.300 túmulos não identificados, verificou-se ter existido um verdadeiro “genocídio cultural” contra as populações indígenas. A violência inaudita e silenciosa ocorreu entre as últimas décadas do século XIX e os anos de 1990. Calcula-se que entre 150 mil e 200 mil crianças indígenas tenham sido enviadas a força, sem o consentimento da família, para esses locais. Muitas morreram e grande parte sofreuprivações e torturas. Com a divulgação do relatório, a indignação latente explodiu por todo o país, com igrejas sendo incendiadas e protestos em todos os setores da sociedade, o que levou o primeiro-ministro Justin Trudeau a afirmar que as “descobertas eram assustadoras” e obrigavam os canadenses “a fazer uma reflexão sobre as injustiças históricas e frequentes enfrentadas pelos povos indígenas”.

O chamamento à conciliação nacional e de pedido de desculpas encontra respaldo na presença do Papa. Várias lideranças indígenas manifestaram o desejo de que o gesto do Papa não fique apenas no simbolismo e acompanhe a decisão do governo que, em agosto do ano passado, destinou cerca € 220 milhões para ajudar as comunidades a encontraremtúmulos não identificados de crianças indígenas que morreram nessas áreas e para apoiar os sobreviventes. Ainda que tenham acontecidoinúmeras manifestações de ceticismo, amargura e dúvidas quanto a importância dessa viagem, não se pode deixar de reconhecer a grandeza do Papa Francisco ao fazê-la.

Leia Também:  Quem alerta amigo é

Para mim, vejo em Bergoglio, com esses gestos, a mesma enorme grandeza do maior Papa contemporâneo, Ângelo Roncalli, João XXIII, que com as suas encíclicas sociais Mater et Magistra e Pacen in Terris deu início, em seu breve pontificado, ao aggionarmento na Igreja Católica nas décadas de sessenta e setenta e levando um entusiasmo cristão a vários setores sociais, e até mesmo a parte da juventude revolucionária em todo o mundo.

Permito-me recuar um pouco mais para, encerrando, memorar duas figuras do catolicismo que ergueram suas vozes contra o tratamento dado pelos conquistadores e pelos representantes da Igreja Católica em sua sanha de domínio aos habitantes primevos de nossa América. Refiro-me ao espanhol frei Bartolomé de Las Casas (1484 – 1566) e ao português padre Antonio Vieira (1608 – 1697), personagens das mais lembradas da História da América por sua atuação política intensa em defesa dos indígenas. Ambos enfrentaram a animosidade dos governos e a oposição da própria Igreja a que perteciam, inclusive Vieira vindo a ser acusado perante a Inquisição. Exemplos magnificos. Atuais.

Vozes tão fortes como essas se fazem necessárias quando assistimos indígenas, em pleno século XXI, ainda a passarem por uma existência de tormentas e agruras. A levarem uma vida marcada por mortes em disputas por seu pedaço de chão invadido por grileiros ou destruído por madeireiros, com seus rios e peixes envenenados pelo garimpo, com seu céu poluído pelas queimadas, enquanto sua cultura, sua língua e suas crenças são esgarçadas. Até quando esses ancestrais da terra buscarão na angústia e no desespero o pão e a esperança?

 

—————————————-

Sebastião Carlos Gomes de Carvalho. Historiador. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso e do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás.

COMENTE ABAIXO:
Continue lendo

PAU E PROSA

POLICIAL

CIDADES

POLÍTICA

MAIS LIDAS DA SEMANA